giordano’s

Sábado, Março 29, 2008

uma tarde de terça-feira normal tanto dentro (o bola mexia no nariz enquanto contava notas de dinheiro no caixa) quanto fora (alguns carros estacionados e do outro lado da calçada duas senhoras conversando em frente à farmácia, pelos gestos uma delas estava falando de algo como uma dor no peito, a outra concordava com o típico balançar de cabeça em ‘entendo’) do giordano’s, exceto, é claro, pelo fato de dois clientes (eu e o darrell hammond) estarem ainda sentados na mesa, um em frente ao outro, aguardando a conta do almoço e, quem sabe, um cafezinho passado, lá pelas 3 e 15 da tarde. darrell me contava com minúcia a história da instalação de um vaso sanitário de mármore na sua casa, design futurista, ‘angulação vertical’ era o nome, coisa fina. fazia umas caras estranhas de desgosto ao lembrar das marretadas, o cheiro de pinga recém descida na garganta, o atraso incrível e essas pequenas peripécias que só pedreiros vivenciados parecem nos fazer experimentar, enquanto eu limpava cada vão dos meus dentes com um palito diferente para depois devolvê-los ao lugar de onde vieram. darrell me conhece há anos e sabe que a chance de dividir uma mesa comigo e não acabar usando sem querer o mesmo palito que eu recém tirei da boca é muito pequena, tanto que às vezes ele espera eu usar e nem deixa eu colocá-lo de volta no recipiente, me pede diretamente e palita seus dentes, sem se importar com a madeira já mole de saliva e com a carne sobressalente na ponta às vezes. o bola sempre me via fazer isso, uma vez ele reclamou, veio até mim com o cozinheiro, os dois sem avental (provavelmente queriam me bater), ele perguntou o que diabos eu estava fazendo, falei que nada demais, só palitando a gengiva com a maior higiene possível.

- mas pra quê usar todos? é nojento, o que as outras pessoas vão pensar se o virem fazendo isso? ninguém mais vai querer palitar os dentes aqui, nem eu que sou o dono quero palitar meus dentes nessa mesa, imagine comer!
- ora, bola. desde que eu me mudei pra cá há 12 anos eu venho comer aqui e sempre o vejo mexer no nariz enquanto conta o dinheiro do caixa. nem por isso eu deixo de pedir o meu xis bacon da semana, deixo?

ele coçava a cabeça e dizia ‘é, é verdade’.

- você prepara sem nem lavar as mãos. coça a bunda e mete a mão na salada, eu vejo! e quanto ao cozinheiro, se ouve do banheiro com a porta fechada o barulho dos escarros. nossa, o que você tem? acho que você devia procurar um médico, uma vez eu estava com uma inflamação na garganta e ele receitou um xarope que ó, batata.

desde então o bola me serve um expresso por conta da casa no final da refeição. eu sempre vejo uma espuminha boiando no centro, não iria ficar surpreso se o flagrasse soltando um cuspe na minha xícara. não tem problema, eu tomo tudo só pra contrariar.

Sábado, Março 29, 2008

uma vez eu ouvi que na frança o presidente tem um programa de cinco minutos ao vivo às oito horas, onde é sorteada uma carta contendo uma pergunta ou declaração do cidadão que é respondida ou comentada pelo presidente. às vezes é interessante, quando não tem resposta ou entra em alguma saia justa, o presidente pega o microfone e começa a gritar contínuo e alto, bem atordoante e ensurdecedor, as pessoas botam no mudo quando isso acontece, porque ele não pára até o tempo acabar. às vezes pedem pra ele fazer alguma coisa, semana passada pediram pra dançar love me tender no ar. ele leu, ficou olhando pra alguém além da câmera, algum produtor responsável que o tirasse daquela situação extremamente incômoda para um homem sério e sisudo como é o doutor presidente da frança, mas ao invés disso ele viu a iluminação fading out e começou a ouvir os sussurros varonis de elvis presley. nessa hora a assessoria devia estar sinalizando algo como ‘vai lá, dança aí, fazer o quê’ pra ele, que, roxo de raiva, se levantou devagarinho pra atender à demanda popular obrigatória. e durante alguns instantes, a família francesa assistiu ao senhor sarkozy dançar lentamente consigo mesmo, com um braço na barriga e o outro no ar como se estivesse guiando, à meia-luz e em rede nacional.

josephine

Sábado, Março 29, 2008

uma vez eu conheci uma garota chamada josephine. ela chegava sempre de saia e trancinhas, parecendo uma norueguesa, naquela época eu não dava muito valor pras mulheres e sempre puxava as tranças dela, ela não gostava e uma hora começou a se defender, ao invés de duas tranças bonitinhas fez uma trança única bem grossa e, quando me via, me chicoteava com o cabelo. eu não aceitei e comecei a andar por aí com um pedaço de pau, se ela aparecia eu chamava josephine, meu amor, vem cá!, ela vinha e eu sentava a madeira. ela chorava e chorava, dando trançaços contra o chão de raiva. com o tempo e os hormônios a nossa brincadeira mudou um pouco, ao invés de bater nela eu inventei uma de passar gelinho nas partes, ela dizia que não e que só ia fazer se eu levasse ela no cisne, que era um pedalinho em um lago meio verde de sujo. levei josephine no lugar, não sem antes comprar algodão doce, ela também queria mas eu não tinha mais dinheiro, deixei ela me olhando comer. ela ficou com raiva, embarcou no pedalinho sozinha e começou a fazer o negócio andar, eu gritei peraí, peraí sua louca safada, peraí, ela não esperou nada e eu tive que pular pra alcançar o rabo do bicho, fui arrastado um tempo na água até consegui subir com as calças puro limo e coisa verde. me sentei ao lado dela, assumi os pedais e já preparei o gelinho, sem perder muito tempo. ela falou pra ir devagar, eu peguei o braço dela e comecei a passar o gelo com a boca eroticamente, ela se riu todinha e falou que chega!, já basta, tenho que conversar com minha mãe sobre isso. tirou a blusa, mergulhou e foi nadando até a margem. ficou me esperando em terra, dizendo pula! pula covarde, embrabeci e pulei. quando cheguei até ela, me pegou pela mão e saiu correndo, sem blusa, eu atrás daquela louca. fomos parar em frente a um prédio escuro, tinha uma mulher parecida com josephine na frente, quando chegamos ela disse josephine!, você está atrasada. nós entramos, era um lugar cheio de caixões e crucifixos, eu estava achando tudo meio estranho, mas tudo bem, vai que ela curte um lance mais macabro, com umas velas e umas rosas de gente morta, sei lá. fomos os três, nós dois e a moça da frente do prédio, guiados por um homem até a porta de uma sala que emanava um ar meio gelado, eu percebi isso quando vi os mamilos rijos de josephine, ainda à mostra. ele abriu a sala e nós entramos, dentro era escuro e frio, com uma mesa com três lugares vagos e um ocupado por uma senhora, ela sorria e tomava um café fumegante. mamãe!, disse josephine, beijando a mulher. a outra fez a mesma coisa, eu pensei em cumprimentar mas elas disseram que não, mandaram esperar. depois ficaram contando segredinhos ao ouvido da mulher, que apenas sorria e segurava o café fumegante, sem reação alguma. elas colocavam enfeites nela e faziam dancinhas ao redor, a velha só olhava pra frente e ria, mas o que é isso, essa velha é múmia? as duas mandaram eu sentar em uma das cadeiras e depois fizeram o mesmo, pegaram um baralho não sei de onde e começaram a distribuir cartas pra todo mundo, colocavando as da mãe na mão dela porque a dona só ficava ali, de manequim. o jogo correu bem até chegar a vez dela, josephine dizia vai mamãe e ela não ia, passou um tempão, eu me irritei e disse jogaí, sua velha empalhada, ela ficou rindo e olhando pra frente, mas que merda, atirei as cartas na mesa e fui me botar no pescoço dela, as mulheres tentaram me impedir mas não conseguiram, quando acertei o murro na cara da senhora fez crec, o pescoço rachou e a cabeça simplesmente caiu do corpo. olhaí!, disse josephine, a outra pegou a cara da mulher do chão e tentava encaixar de novo, eu mandei as duas se catarem, elas queriam me bater mas eu fui malandro, arranquei um braço da velha e usei como clava defensiva, fui chegando perto da saída e dando golpes com o braço avulso no ar pra afastá-las, abri a porta e larguei correndo com um pedaço da mulher na mão.

Sábado, Março 29, 2008

o que você faz quando vê uma formiga de três patas se arrastando no chão? você acaba com a não-funcional e agonizante vida avariada dela? ou quem sabe a vê se arrastar com bravura até conseguir chegar finalmente a um grupo próximo de outras 12, que não levariam muito tempo até completarem o arraste, o sacrifício e a devora. os bebês estão famintos, eles precisam de mais e mais matéria viva.

talvez a natureza dê certo porque tudo parece ser feito por vontade própria, ninguém é obrigado a ser quem fica em um bando de zebras fugitivas de um leão, por exemplo. todas correm o máximo que podem até que uma é pega e o resto consegue se afastar.

- eu fico, vocês vão
- ok

Sábado, Março 29, 2008

estava fazendo um calor tenebroso naquele domingo, por isso eu resolvi dar um mergulho ali na piscina do osvaldir, meu vizinho do outro lado da rua. cheguei lá e quem abriu a porta foi a dona ruth, de maiô e com uma touquinha, bem gorda e sorridente. pediu pra eu entrar e já ir tirando a roupa, eu falei que nem precisava pedir. quando apareci no pátio já estava só de meias e uma bóia do pato donald. encontrei o osvaldir sentado na piscina de plástico, pançudo e com várias cevas espalhadas pela água. ele abria uma lata e quando terminava deixava boiando pras crianças brincarem de ataque submarino.

esses dias nós estávamos aí nessa mesma situação quando eu dei uma olhada pra filhinha dele de sete anos e falei que ia dar gostosa. ele se levantou e mandou eu nunca mais aparecer naquela casa, perguntei se dava pra levar uma ceva pra beber no caminho e ele respondeu que sem ceva, seu canalha filho duma puta. eu falei que ‘canalha é o senhor’ e ele me tocou uma lata que deu na minha testa, fiquei tonto, preteou tudo e eu quase caí. quando me recuperei eu não sabia se estava delirando da pancada ainda porque eu vi que ele estava querendo vir na minha direção que nem um touro, em posição de chifrada, imitando chifres com os indicadores, raspando o pé no chão e curvado. eu não sabia que ele tinha essas tendências de minotauro mas tudo bem, peguei um avental que a dona ruth tinha deixado na mesa e comecei a provocar, ‘vem touro, vem! ole toro!’. ele veio e passou lotado, eu disse olé! e ele continuou vindo atrás de mim, balancei o pano e quando ele passou dessa vez se foi com avental e tudo, agora eu não tinha mais o que sacudir, que bela merda de toureiro.

olho do furacão constante

Sábado, Março 29, 2008

lugar do mundo de massiva concentração de correntes de ar a toda velocidade para todos os lados, um vendaval horrendo está sempre acontecendo mas tem uma vila humana bem no meio, é mais um desses lugares estranhos do tipo atlântida, onde tudo sempre está destruído ou afogado há mais de cem mil anos ou até mesmo o pequeno vilarejo ao pé de um vulcão na guatemala, onde a lava obriga os camponeses a suportar a dor e a mutilação e enfrentar com bravura e pose a sensação horrível de derretimento e morte em poucos segundos, na verdade agora não tem mais nada lá.

Sábado, Março 29, 2008

há uns cinco anos atrás eu estava completamente sem dinheiro, minha mãe me mandava uns trocos e alguma coisa pra comer pelo sedex, meu pai era pescador em cacimbinhas e sempre enviava o melhor peixe da pescaria do dia, a encomenda chegava três dias depois do envio, o carteiro do bairro vinha entregar o meu pacote primeiro porque era uma bomba de mau cheiro o negócio, um chulé de bota velha com ovo de bosta, ele batia na minha porta, deixava no chão e saía correndo, eu abria pra ver quem era e encontrava uma caixa meio molhada e cheirando a meu deus, o que é isso? um dinheiro todo encharcado e pegajoso, um peixe podre, mas quem foi o filho da ah sim, minha mãe.

Sábado, Março 29, 2008

uma vez eu tive a impressão de ter atropelado um et, estava meio escuro e do nada apareceu um vulto magrinho, cabeçudo e olhudo na estrada e se foi parachoque abaixo, o carro deu até uns solavancos de quem passa por cima de alguma coisa mas eu desci pra ver e era só um cara.

Sábado, Março 29, 2008

a linguagem atravanca o pensamento, só o trabalho de formular uma frase que represente toda aquela constatação que a mente ficou elaborando durante três árduos nano segundos de pisca alerta geral entre os neurônios já faz com que todo o trabalhoso caminho percorrido pelos impulsos seja completamente posto de lado só porque agora é necessário lembrar das malditas palavras e seus significados abstratos, adequá-las ao quadro situacional contextual tempo-espacial que precisa ser exposto (aquele pontinho no gráfico SxT e toda a história que conta o enunciado da questão na prova) e ordená-las de forma compreensível segundo as regras impostas socialmente, inclusive agora por oscar niemeyer, que volta e meia aparece na academia brasileira pra tomar chá, falar e caminhar de uma forma muito, muito, muito velha.

bom, o que eu queria dizer é que enquanto se fica calculando o nexo causal da coisa toda só pra quem quer que seja ficar sabendo, o fio da meada já se perdeu e o train of thought, como diria aquele disco muito ruim do dream theater, passa por ti a milhão na plataforma e agora o máximo que pode acontecer é você ser mulher, o vento do trem passando levantar o seu vestido e ficar uma coisa sexy, assim.

Sábado, Março 29, 2008

gosto tanto de carne vermelha que um dia peguei um garfo e espetei um boi