Terça-feira, Novembro 27, 2007

- você pode revisar isso pra mim?, cláudio
- quem?
- ..
-
- marta?
- quê?
- ..
-
- mãe?
- (indo embora)

quebrei uma persiana aqui em casa

Domingo, Novembro 25, 2007

foi sem querer, eu juro. ela teve que ser arrancada e agora tá ali jogada na área, no meio das roupas estendidas.

então eu me indago com certa aflição: vai que a ímpia e injusta odisséia dos marimbondos nesse planeta resolve coincidir com a minha casa e com a persiana jazendo ao relento na área, deixada de tal modo a criar um ambiente propício e estratégico para a sobrevivência, a reprodução e o estabelecimento da sociedade marimbonda naquele abrigo natural (?).

aí vou lá recolher roupinha antes que chova e sem querer esbarro em persiana e em casa de marimbondos, causando a fúria e o ataque.

morro, enroscado nas cordas do varal entre cuecas e prendedores, heroicamente.

Quarta-feira, Novembro 7, 2007

esses dias eu saí pra comprar maçã verde. abriu uma quitanda do outro lado da rua com um toldinho listrado e várias frutas expostas do lado de fora, bem típico. gonçalves, o nome. devia ser em homenagem ao dono, mas eu não sei não, tinha um pôster do botafogo seven-up campeão brasileiro atrás do balcão, eu também nunca tive coragem de perguntar pra saber, não é coisa que se faça toda hora olhar pra alguém e dizer ‘tu tem cara de quem curte não ganhar nada há trinta mil anos, tira a orelha desse rádio o quanto antes que vai dar merda, rapaz, vai dar merda’, enfim. desci e quando cheguei lá, uma senhora que estava escolhendo bananas afastava as mosquinhas com um leque. bem na hora que eu passei ela me acertou sem querer, eu disse opa!, ela pediu desculpas e eu entrei. as maçãs verdes estavam empilhadas em uma pirâmide quase perfeita, alguém tinha tirado a fruta do topo mas mesmo assim era bem bonito ficar olhando a coisa toda armada ali, cuidadosamente.

(..)

porque eu acho que a graça da vida é o cara escapar das armadilhas, né. todo mundo querendo sacanear e tu ali só na ginga, não dá pra fugir quando o pega-ratão aparece com uma baita ratoeira e diz que vai te pegar pelo rabo e te tocar pela janela, eu vou direto pro queijo, não tô nem aí, foi pensando nisso que eu resolvi dar vazão ao meu instinto sudoku, quis saber quantas maçãs eu poderia retirar da estrutura sem derrubá-la, comecei com uma bem debaixo que estava mais à mão. nisso o dono da quitanda deve ter percebido minha intenção e interveio. em que posso ajudá-lo? eu disse que era uma construção muito bem feita, mas com certeza em 12 ou 13 jogadas ela acabaria cedendo, ele coçou a cabeça parecendo não entender muito bem e eu continuei.

- porque você sabe, né. se eu acabar com as maçãs você vai ter que me dar a quitanda.

eu peguei mais três e ele ficava perguntando se era pra levar, que cidadão mais sem imaginação esse, acho que os empates em casa acabaram tirando dele a capacidade de sonhar. na décima segunda maçã, quando eu percebi que iria sair vencedor daquele pega-varetas da vida hortifruti, ele teve um súbito espasmo de criatividade.

- eu acho que seria melhor se você não pudesse tirar as maçãs de cima antes de ter feito a pirâmide ficar com 1/4 do tamanho original. e se houver um desmoronamento menor que não comprometa a existência da construção em si, você também perde pontos.

senti que fiz um amigo aquele dia.

(..)

quando saí, a senhora das bananas estava caída dura no chão, agarrada no leque como se fosse a espada do paladino que caiu na cruzada. as mosquinhas sobrevoavam e pousavam na face boquiaberta. eu não tinha visto ela ali, acabei tropeçando, falei opa!, mas dessa vez ela nem disse nada, então peguei a carteira do bolso dela e fui embora.