um dia um homem conseguiu tomar consciência de si mesmo durante um sonho. sua mente despertou do sono e começou a viver dentro do que o próprio inconsciente havia criado, como se fosse a realidade. ele andava e as ruas ao seu redor eram brancas e brilhavam, as pessoas, as coisas eram todas tão iluminadas, e o céu era de luz, muita luz. seu corpo brilhava e era leve, leve como se não existisse e pudesse ser levado a qualquer lugar sem nenhum esforço, apenas pela vontade. saiu voando pelo mundo de luz, tão rápido quanto ele pudesse imaginar que seria. cruzava o céu de olhos fechados com os braços abertos e agora tinha asas, era um sonho em que ele podia voar e nunca mais ser alcançado por ninguém.
ele acabou não voltando, ficou dormindo pra sempre na vida consciente, nunca mais acordou. e as pessoas que lamentavam ao seu redor jamais souberam que, na verdade, a vida dele foi bem feliz.
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um vez eu inventei de usar uma roupa ridícula e fazer graça na rua. comprei uma fantasia de pirata, arranjei um papagaio e me atirei contra um carro pra ver se perdia a perna. aconteceu, o choque foi bruto e eu danei a perna para todo o sempre. gangrenou e depois de um tempo ela caiu de podre, eu estava andando e achei que tinha tropeçado mas não, tinha sido um aleijo. meti um toco de madeira no lugar, ficou legal. finalmente fui pra rua, comecei a dizer nau a bombordo! nau a bombordo! apontando pro além com uma luneta, todo torto de gin. tinha uns que riam, outros só me contornavam na calçada mas normalmente as pessoas trocavam de lado e alguns tentavam me agredir, atirando pedras e um até jogou uma tesoura, mas eu escapei. uma hora uma senhora estava passando e fingiu não ter me visto. eu gritei IO-HO-HO! bem no ouvido dela, a velha começou a me guarda-chuvar, eu pedi calma minha senhora, calma que é carnaval, mas ela batia bem na cabeça, pra desmaiar mesmo, meio louca e xingando. o papagaio saiu do meu ombro e começou a voar ao redor, gritando velha assanhada! velha assanhada bem alto com uma voz papagaiante, eu achei muito engraçado, ora essa, treinar um papagaio pra falar velha assanhada, mas não deu pra ficar rindo muito não, eu já estava no chão caído e a senhora cravava o cabo do guarda-chuva na minha barriga com muita força, deu uma na canela, duas no pulmão e eu desmaiei.
um pouco de história
Sexta-Feira, Setembro 14, 2007
existe uma cor no mundo conhecida como azul relaxante. a percepção dessa cor no cérebro humano é interpretada como um comando de relaxamento total ao esfíncter, levando o indivíduo a se cagar onde quer que esteja. nos tempos medievais e de brutalidade com a espada, as hordas de ogros eram auxiliadas pelos levantadores, duas pessoas que seguravam bem alto um pano feito dessa cor. quando se aproximavam e percebiam a tonalidade, os inimigos eram acometidos por forte fluxo intestinal, tornando-se alvo fácil para flechaços na traquéia e na glande, que também acreditava-se ser um ponto vital.
- não olhem pro pano, vocês vão se cagar! não olhem pro pano gritava van persian para as fileiras da frente, que avançavam correndo em direção ao inimigo até sentirem que alagou, a parada providencial era um convite ao tiro.
ossinho
Terça-feira, Setembro 11, 2007
- mas o que é isso, você está louco?
- não, eu não estou louco. vou atear fogo na minha própria casa e vai acontecer um milagre, você vai ver.
ele estava no pátio, o rastro de gasolina ia dele até a casa, que estava banhada, a mulher dentro. ele deixou cair o fósforo aceso. o caminho do fogo até a casa foi um instante que marcou pra sempre a memória dos vizinhos bisbilhoteiros de longe. alguns segundos e toda aquela estrutura simplesmente explodiu, sabe-se lá o que tinha dentro. gás? óleo? sementes de avião? bodas de larica? ninguém sabe.
só se sabe que o homem saiu voando com a explosão e foi parar atravessado num galho duma árvore, ficou pendurado ali, pela cabeça. a vizinhança foi se aprochegando do acidente e quando viram o corpo alguns desmaiaram, outros gorfaram. o cadáver balançando, cravado pela cabeça, feito um bilhete que se põe num mural e se prende com um alfinete.
blem blom, balançava com o vento. blem blom, o cadáver balançante, chamavam as crianças. alguns diziam que ele badalava como o relógio. eram 15 penduladas às três, 17 penduladas às cinco.
o mau cheiro de cadáver e a aparência hedionda devido a putrefação contínua (a morte, ela nunca pára nem diminui) acabou por afastar todo e qualquer ser vivo das proximidades, exceto alguns corvos, que vinham bicar-lhe a barriga até finalmente arrancar-lhe alguma tripa, às vezes mordiscavam a garganta, às vezes esfacelavam-lhe o fígado.
aquela árvore, ela morreu mais depressa do que devia. as folhas caíram rápido e o tronco secou logo depois. virou uma árvore morta a sustentar uma carne já podre e grotesca, que não demorou a virar esqueleto, velho e fedido. fedia de longe, aquela ossada pendurante. era maldita. as crianças sempre mandavam as outras chegarem perto num desafio sadoinfantil, e elas chegavam, cagadas de medo, até bater um vento e a ossada balançar, alguns desmaiavam, outros até morriam e deixavam seus corpinhos jovens e tenros como oferenda ao osso inútil. apodreciam e os craniozinhos começavam a se empilhar, meigos, numa pilha macabra.
no final eram infinitos. infinitos ossos espalhados por todo o chão, todos em torno do crânio-mor, que pendia na árvore extinta, furado na testa pelo galho intruso. era um branco morto que se estendia até o mais longe que se pudesse ver de qualquer lugar. mais e mais ossos se espalhando, até que não sobrou ninguém mais.
e assim ficou a terra, durante 123 mil anos.
um dia me ligou o alberto, convidando pra tomar uma água com limão na lancheria ali embaixo. estava um calor de matar e ele já me esperava lá sentado, com uma calça branca, um chapéu e uma camisa florida em tons alaranjados. alberto lembrava fortemente o ney latorraca. o rabo de cavalo grisalho pendendo, o olhar da raposa. uma vez eu perguntei pra ele se o ney latorraca já não tinha morrido, ele me respondeu que não e não disse mais nada, será que não era ele mesmo? sem falar nos indícios fortes de personalidade, volta e meia ele fazia citações de personagens do ney, como se fosse uma coisa normal..
- vou abrir a cortina, alberto.
- NÃO NÃO LUZ DO SOL NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOO!!!!!!!