não sei se fui só eu que vi, mas teve um dia nos jogos panamericanos que aconteceu uma coisa muito estranha. eu estava à tarde acompanhando pela tv a cabo as lutas de karate, lutavam um cubano e um chileno. os dois estavam frente a frente se encarando até que um tirou um martelo do kimono e deu no outro lutador. o narrador fez “opa!!! opa”, o árbitro paralisou a luta e começou a analisar o que tinha levado a martelada. o comentarista disse “foi martelo, ein? pra mim, martelo claro”, entrou o replay e passou em câmera lenta a agressão esdrúxula. ele estava normalmente na posição de combate e simplesmente tira um martelo e agride o adversário sem mais nem menos. “é, sem dúvida. claramente o uso do martelo.” “com certeza. os juízes conversaram com o árbitro, ele está voltando até os lutadores..” “vai dar martelo.” “.. e tá lá! deu o martelo, final de luta!”, terminaram a luta e o martelado comemorava dando a volta no ringue com os braços erguidos, eu mandei uma carta pra emissora pra saber o que estava acontecendo.
entrevista ao ovolacto
Segunda-feira, Agosto 27, 2007
chegaram os caras, eles estavam fazendo um entrevista com o público ovolactovegetariano. abordavam as pessoas na rua, perguntavam se eram ovolactos e faziam as perguntas.
- o que você acha de quem come carne, você tem alguma coisa contra essa prática?
- não, não, eu não vejo nada de errado em quem come carne. claro; eu, sendo um comedor de ovo, queijo e ruminante de folhas, me sinto superior e extremo perante esses primatas bárbaros aglutinadores de carcaças, mas eu não tenho nada contra não.
- hm. e o que você acha de uma listra branca grossa de gordura bem no meio de um bacon?
- o quê?
- é isso mesmo, sua girafa. que tal um pouco de salsichão nesse rabo, ein?
- que que é isso cara, tá maluco? (já começando a encarada pegadinha do joão kleber)
- e esse crepe aqui (mostrando um crepe), é de lombinho, quer um pedaço? tem banha também, vai querer graxa? (eles já estão fugindo, o entrevistado tentou acertar uns chutes e quase conseguiu alguns, mas os caras eram mestres na arte de largar correndo)
tava indo curtir uns travestis na noite da redenção quando topei com a hebe camargo no meio do parque, ela dançava balançando uns chocalhos em torno de uma fogueira, vestia uma pele de tigre e usava uma máscara xamânica que cobria todo o rosto, só a reconheci por causa da saliência peniana que ela tanto teima em esconder. ah pára, hebe. até no tempo do rádio o pessoal já sabia dessa sucuri entocada aí, esse trabucão parceiro. que que é esse gogó no pescoço então, tá com câncer na traquéia, é? embolotou na garganta o fumo, ah, não mente não, que goela ardida era só a da nair belo, que chaminé aquela mulher, fumava aquele marlborão sem filtro, ficou só na caveira, coitada, que deus ou sei lá que demônio a tenha. mas e aí, ex-vedete da vara oculta, rola um programinha? ela insistiu na trova da mulher um tempo, eu me irritei e dei um tapa na cara dela, a máscara caiu e amaury júnior? mas o que você está fazendo aqui a essa hora vestido assim, ele fez uma cara estranha de quem não entendia e eu apontei pra pele de tigre que peraí era um fraque? mas tu não tava dançando em torno da mesa farta cheia de comida?, as árvores viraram convidados, uma luz forte na minha cara, meu deus, confundi o amaury júnior com uma boneca da redenção, bah, foi mal aí gurizada, ele me mandou nunca mais voltar no programa e eu mandei ele à merda, ah pára, tô eu aqui tri de boa no chá de fita e me aparece um apresentador engomadinho perguntando dos novos projetos, mas que projeto, tá me achando com cara de kléber bambam pra ficar ‘tando aí com uns projeto’? vai ver se tua mãe não tá só de calcinha na redetv, seu almofadinha miserável.
- pode vir com esse laser, vamos! vem com esse laser
um soldado estilo rambo, sem camisa e com uma faixa vermelha, para o tanque-laser à sua frente.
/join
Sexta-Feira, Agosto 17, 2007
quando conheci chan serv, eu estava sentado em um banco em frente à bancada de uma lancheria. eu esperava um xis e tinha um senhor de casaco velho e boina cinza do meu lado, já comendo um xis bacon. não sabia comer direito, caía coisa o tempo todo. uma hora ele me cutucou e eu olhei. queria um cigarro, eu dei. pediu fogo, eu tinha mas não sabia onde, comecei a procurar pelos bolsos. estava tateando o da calça quando reparei que ele estava me olhando com uma cara estranha, fazendo uma sobrancelha mais alta do que a outra.
- eu te conheço.
- nunca vi mais gordo.
- otávio francisco, não é?
- sim, sou eu. quem é você?
- você não é o VAMOSLAZIO do canal #real_fascist_white_guys?
- sou. quem é você?
- prazer, chan serv.
chan serv, casado com nick serv, irmão de memo serv. diziam que o menage era liberado, chan pelo menos tinha cara de quem deixava.
- eu sei de tudo o que você tecla.
- (meu xis tinha acabado de chegar, eu estava mastigando e olhando pra ele)
- sei do seu op no canal #yes_weloveinterracialsexhereandnow. e nick andou me contando de suas travessuras como a_pRiNcExInHa_DoUrAdA. doidivanas, traquinas. quero saber mais sobre o coito? ora essa.
- (só então me dei conta de que estava frente a frente com chan serv! meu deus, ele sabia de tudo! aquele homem sabia de tudo. diziam que era só uma história, que não, não podia existir alguém que soubesse de tanta coisa, que nunca ninguém tinha o visto. e agora eu me encontrava perante a lenda, o mito do servidor, senhor de todos os canais, rei das senhas, deus dos autobans, soberano dos ops. não havia segredos para ele. sobre ninguém. chan serv.)
- você anda mentindo muito. eu sei muito bem que foi você quem travou o tópico. aquelas coisas feias sobre a mãe dos outros..
- (eu estava tenso)
- mas para o [182]Root-boy[182] você se esvaiu da culpa, não? você disse que foi o jonas.
- (mas que merda)
- ah, sim. eu me lembro muito bem daquele pvt. scoop script, ã? belas cores.
nisso, dois ircops chegaram por trás e me imobilizaram, eu tentei lutar mas fui arrastado até um carro e levado embora.
- vamos brincar de assalto à joalheria?
- oba, vamos! eu sou o chefe!
- tá, eu sou o contratado. e você?
- eu vou ser o mártir!
ele chegou na frente da porta de vidro da joalheria que estava fechada e se lançou contra. no chão, furado e ensangüentado, dizia “peguem tudo por mim! peguem tudo por mim..”, enquanto os outros entravam.
rpg
Segunda-feira, Agosto 13, 2007
eles correram tudo o que puderam, atravessaram o vale inteiro, passaram pelo bosque, pela plantação de trigo, pelo raso do lago tarkus. acabaram indo parar na beira da encosta que dava pro rio solen. sabiam que iam acabar lá, no precipício sem saída alguma, mas parar não ia adiantar de nada.
chegaram, esbaforidos.
- agora estamos perdidos.
- é.
jonas nunca tinha imaginado que tudo ia acabar ali. de que adiantou todo o esforço? olhou para a espada em mãos e pro companheiro laarsen, que ainda arfava.
- eles vão chegar daqui a pouco.
jonas não prestava atenção mais. a visão da encosta era muito bonita. dava pra ver toda a extensão do rio solen e praticamente todo o condado. os montes à esquerda, e lá longe, a geleira de niärthar. lembrou do pai.
- laarsen..
- ?
“nunca seja um covarde”, ouvia agora em sua mente. a voz do velho nilssen, aquele senhor que insistia em lutar contra ele o tempo todo. desde pequeno aquele treinamento, era uma guerra sem fim contra o próprio pai. brutal demais para um garoto. o pequeno jonas teria odiado seu pai, não fosse ele a única pessoa que viria a conhecer durante dez anos. e não fosse a sensação de que aquilo fazia parte do seu destino.
- diga a meu pai que..
- seu pai? jonas..
- diga a ele que eu sinto muito..
- jonas, seu pai está morto agora!
o único guerreiro capaz de defender o vilarejo, um dos três remanescentes do exército que certa vez lutou por odin em defesa de toda a suécia, morto a espada diante dos camponeses indefesos e do próprio filho. “jonas.. salve o pingente”, disse ele, pouco antes de receber o golpe que lhe tiraria a vida de vez, e que iniciaria a fuga desesperada dos jovens, na tentativa de salvar o artefato guardado há centúrias pela família de jonas.
jonas agora olhava o pingente, que segurou durante toda a corrida com toda a força que pôde na mão direita. se voltou ao amigo, com um sorriso final.
- e me desculpe você também, laarsen.
- jonas.. jonas!
quando laarsen proferiu o nome do outro pela segunda vez, já era em vão. lhe restou acompanhar a trajetória da queda lenta do jovem jonas lindberg encosta abaixo, com o pingente firme na mão direita, terminando com o mergulho na água gélida, de onde com certeza jamais voltaria.
às suas costas, sete homens em cavalos desembainhavam suas espadas. o som das lâminas desesperou laarsen. era impossível.
dois caras sentados em um sofá.
- o claudilene (procurando em um caderninho)
- hã
- qual é o telefone da mulher lá que consegue os extratos?
- pega na minha agenda, o cartão dela tá na capa.
- e cadê a tua agenda?
- tá aí na mesinha do lado do sofá
em cima da mesa, só a bolsa. estava dentro, será? abriu, enfiou a mão e achou.. uma arma? mas o que é isso aqui, um.. um distintivo? claudilene, você é tira?
- claudilene
- eu
-
- fala, francisco
- claudilene, você é tira?
- oi?
na mesma sala, alguns baseados em torno de um cinzeiro, uma pedra de 50g de maconha, um montinho bem considerável de cocaína e umas sete carreiras preparadas, bem longas, mais umas armas sem registro em cima da mesa, um malote de dinheiro que estava no sofá e duas pessoas amordaçadas e amarradas vendo a televisão, onde o programa mostrava o apresentador tentando rebolar com o bambolê do lado de uma dançarina de axé. depois a mulher fez direito.
o outro olhou pro francisco quando ouviu a pergunta. ele mostrou o distintivo.
- quê?, disse joel, se levantando e já pegando uma arma
francisco fez sinal de calma e pediu silêncio
- que foi? veio ela, escovando o cabelo molhado.
eles ficaram olhando pra mulher durante algum tempo.
- ã, eu não achei a agenda (quando percebeu ela chegando, francisco fechou e largou a bolsa rapidinho, ela não viu que ele estava mexendo)
- mas tá ali do teu lado
claudilene se dirigiu até a mesa e tirou a agenda de baixo da bolsa.
- ah.. obrigado.
ela voltou para onde estava antes.
- vamos matar ela!
- calma, joel! a gente não pode matar ela assim.
- e fazer o quê então? essa mulher sabe de tudo, cara. pode nos ferrar de cima a baixo, já deve ter nos ferrado! não dá pra brincar com polícia, rapaz! se der zebra, é cana!
- eu sei, eu sei.
estavam inquietos, os dois.
- vamos ter que seqüestrar ela também, amarrar ali com os outros. nós estamos em dois, francisco. vai dar pra emboscar. a gente obriga ela a confessar o que que a polícia já sabe e faz ela de refém. quem tiver atrás de nós logo logo vai saber que ela foi descoberta, e aí eles não vão vir nos pegar, pelo menos por enquanto vão preferir deixar ela viva. vai ser nossa garantia de que a polícia não vai vir com tudo e de que a gente tem uma vantagem.
- isso é arriscado demais..
- acorda, francisco! se a gente não agir primeiro, eles vão! ou quem sabe tu quer ficar aí sentado esperando o dia que essa vadia vai encostar um cano na tua nuca e te largar em cana, ein? tu acha que ela vai deixar de fazer isso quando puder?
ele assentiu, contrariado.
- está bem.
- é isso aí.
joel estendeu a mão. francisco cumprimentou.
eu só queria sentar e comer o meu milho em paz, sabe? mas aquele cara estranho sempre senta do meu lado e puxa uns assuntos do tipo “puxa, o algodão doce hoje em dia não é mais o mesmo”, ou “quantas horas faltam pra próxima edição de supermarket”, puta merda, todo mundo sabe que esse programa não passa mais na band há uns doze anos, o ricardo corte real deve estar numa clínica mental hoje em dia e NUNCA, NUNCA NA VIDA VAI EXISTIR UM CATCHUP GIGANTE NA ESQUINA DO CORREDOR DO SUPERMERCADO VALENDO DEZ MIL PONTOS, ESQUECE ESSA HISTÓRIA DE BONUS ROUND DE UMA VEZ POR TODAS PELAMORDEDEUS ME DEIXA EM PAZ! ME DEIXA EM PAAAAAAAZ ME DEIXAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
meus sábados pela manhã costumam durar até às duas da tarde e nesse não seria diferente, não fosse a furadeira suave e penetrante lá pelas dez na parede ao lado. fui contagiado pelo som animador, não ia ficar ali ouvindo aquilo, era melhor levantar. tentei, juro que tentei. mas acho que fiquei preso e enozado no lençol, ou pisei em alguma parte dele que estava caída da cama, não sei. tombei miseravelmente e dei de dente no chão, doeu demais. fiquei uns sete minutos me retorcendo e lamentando essa minha vida que não perdoa em falhar justamente quando eu recupero a consciência, não poderia ter acontecido alguma coisa do tipo nascer uma espinha enquanto eu durmo, ou ficar em cima do braço e acordar com ele dormente e ter que ficar batendo pra voltar ao normal?, mas enfim, eu só queria um café pra tentar salvar o dia logo pela manhã, uma xícara de café bem preto é sempre um belo começo, ou recomeço. uma tentativa, pelo menos. só que meu dia continuou um lixo, porque não tinha café, nem leite, nem pão, nem porcaria nenhuma, só uma cenoura. peguei e mordi, ruim pra caramba, que belo dia. desci e fui comprar jornal com uns trocados que achei do lado da tv, cheguei na banca e a manchete era “sábado de merda”, e uma foto do augusto liberato apresentando um programa. quer tentar a sorte?, disse o jornaleiro. ele usava uma boina e tinha uma velha raspadinha do bônus da saúde em mãos.
- essa daqui eu guardo desde 93. é do lote premiado!, meu sobrinho ganhou dez mil cruzeiros numa dessas.
eu achei simpático e senil daquele senhor, me oferecer uma raspadinha que não vale mais há uns 15 anos, mas aceitei. raspei ali mesmo, com a chave do portão. eram seis coisas escritas, se três fossem iguais era o prêmio. boné.. bilhete grátis.. dez mil.. dez mil.. bilhete grátis.. e o último era.. ?
- ô meu senhor, que palhaçada é essa de tico desenhado aqui na minha cartela?
- tico?
- é, tem um tico aqui, po.
o senhor ajeitou os óculos e olhou pra cartela. era um tico sim. desses que se desenham no caderno dos colegas e no quadro-negro. uma vez eu desenhei um na cadeira da professora de geografia com liquid paper, ela ficou braba e perguntou pra turma mas quem é que fica querendo que eu sente no tico toda semana?, eu ri demais, foi muito engraçado. me descobriram e eu usei chapéu de burro o resto do ano inteirinho, sentado no tico no canto da sala.
- hm.. é, é o tico mesmo.
- e agora?
- bom, agora o senhor deu azar de levar tico. tenta semana que vem, vai que aparece um bilhete grátis..
- como assim, levar tico? tá ficando louco?
- é, amigo, é assim mesmo. sempre tem alguém que tem azar e pega o tico, mas fazer o quê.
- que pegar tico! tá de palhaçada? quem pega em tico aqui é você!
- não, eu não, que a cartela é sua. eu fiquei aqui olhando e o tico apareceu foi pro senhor. não posso fazer nada, agora que levou tico, vai pra casa.
eu estava pronto pra me botar naquele velho quando percebi dois senhores quase chorando de rir com o diálogo. eu olhei e eles tentaram parar, sem muito sucesso.