bah euo[elrgh foi só o que se deu pra ouvir antes de ser despejada uma mistura de salsicha e bile muito horrível na mesa. aquilo foi se espalhando e começando a pingar no colo de quem mais estivesse sentado, as pessoas começaram a largar rápido da mesa senão iam se lavar de gorfo que nem o cidadão carlos, que entrou pelo cano ontem na noite, nem dormiu direito e foi pro trampo todo errado. aí descobriu que tinha reunião e chegou atrasado com uma baita cara de ontem que todo mundo viu quando ele entrou, mais um cheirão de ontem que sentiram quando ele passou e um bafão de ontem que perceberam quando ele disse “e aí”. sentou, ficou um tempo e uma hora não deve ter dado mais, deve ter embolado tudo na goela e aí foi. agora tá ali o cara, deitado no gorfo.
o padrasto puxou a cadeira e sentou na ponta da mesa, de onde o velho sempre falava. agora só tinha ele. acendeu uma vela pra iluminar o rosto, porque lá de fora a essa hora só vinha breu.
- (meio que introduziu com um silêncio e olhando bem pra todos)
- (e aqui, a platéia atenta. dois caras na casa dos 30 anos com umas barbas por fazer tri rudes e um de 13, imberbe e cabaço em tudo)
- alguém precisa ir lá fora e trazer pão.
- não pode ser, acabou o pão?
- o pão está acabando muito rápido.
- malditos sejam esses coelhos! porque é que temos que ficar cuidando deles?
- ah, eu não sei. os coelhos eram do seu pai, se existia alguém que podia dar essa resposta era ele. agora não tem mais ninguém. mas uma coisa eu digo, eles vão ficar aí e nós temos que manter eles vivos, nem que seja com o custo de nossas vidas. da minha, da sua, da sua e da sua, moleque.
- eu não vou arriscar minha vida por um bando de coelhos. agora que meu pai está morto, nós não precisamos mais deles.
- do que você sabe, seu fedelho miserável.
- fedelho é você!
- fedelho miserável!
- parem, parem. parem com isso! me escutem! está na hora de decidir quem vai lá buscar pão.
- vai o fedelho, faz três semanas que ele não vai
- é mentira, eu fui ontem! é mentira, seu
- fique quieto! olhem, eu proponho jokempô pra decidir quem vai.
- jokempô? eu não vou jogar esse jogo estúpido.
- o que você quer então? ninguém aqui vai querer ir buscar, não é? vamos ter que decidir na sorte.
um tempo pensando.
- alguém vai pegar um baralho então. quem tirar dama está livre. tem uma pra cada.
o garoto pegou o baralho na gaveta e estendeu aos demais. cada um colheu a sua. viram as cartas; nenhuma era dama. pegaram outras e viram de novo. sem damas. deram uma olhada um pro outro. foram de novo.
- achei, achei! achei a dama hahahhahha! eu fico aqui com os coelhos
os outros invejaram aquela dama de copas sendo mostrada alegremente, como um título. saíram pra noite atrás de pão. pra eles e pros coelhos.
a noite era um matagal escurão, tipo a grama do velociraptor do parque dos dinossauros, bem altona assim. e uma luazona e uns uivos de lobo. a impressão de olhares era constante, resolveram correr; resolveram errado. o barulho deve ter chamado a atenção. começaram a surgir feixes de luz vindos de longe, passando muito rápido e zunindo por entre eles. continuaram correndo, uma hora acertaram um deles. tomou na perna, ele caiu, e, no chão, viu que tinha mais alguém ali deitado, eram umas calças e pés de sapato, não dava pra ver o rosto. depois sentiu mais dois na barriga e desacordou pra sempre.
paint
Segunda-feira, Julho 23, 2007
o cara chega com um disquete na fotocopiadora e diz olha aqui, eu tenho essa imagem e preciso que você recorte um pedaço dela e cole em outro lugar. é possível?
e o vendedor responde é tão possível quanto arremeter essa abelha, meu rapaz. o novo paint já dispõe do recurso recortar entre os ícones do menu. daí uma demonstração do recurso recortar. o desenho é um telefone em uma mesa e um gato dormindo no chão em uma sala, aí ele recorta o telefone e cola em cima do gato. depois preenche o pedaço recortado que ficou branco com o super spray de bits. ele escolheu amarelo, não era bem a cor do fundo, ficou um remendo tosco e malfeito
poxa, é fácil, não? com esse novo paint.
“aaahahaha parecia uma aranha velha ahahahahhhaahh” (Chaves, sobre a atuação de Seu Madruga no ringue)
reuniãozinha
Domingo, Julho 22, 2007
eu gostava tanto daquelas reuniões lá em casa, eu chamava três amigos meus e nós fazíamos jogos divertidos de ação, o favorito era luta japonesa da morte, dois pegavam umas espadas e começavam a lutar estilo anime, com todos os clichês de luta japonesa, do tipo o cara leva um golpe na boca, passa a mão na ferida e vê que tá sangrando, daí dá uma risadinha e diz “agora eu vou lutar a sério iáá” e vai, tá ligado? pois é. tinha outro também em que a gente se atirava coisas com coisas. eu escolhia atirar um copo cheio de garfos, mas meus amigos normalmente preferiam uma caixa cheia de fósforos. eles diziam que eu era “muito esperto por fazer essa escolha, johnny” e sempre se feriam e eram perdedores. depois disso a gente comia uma bandeja cheia de salgadinhos. por último ficava o jogo da dor, daí quem se chocasse contra o sólido da maneira mais abrupta tinha o direito de escolher o jogo até o final. quem ganhava era sempre o baleia, ele se lançava de lado contra a parede de um jeito que dava um estrondo bruto na casa, tremia até. o cabeçaço de lado era profundo.. depois a brincadeira era sempre gemer de dor no chão e depois ficar quieto.
quando eu morava num apartamento no centro de porto alegre, eu era vizinho de uma mulher que devia ter lá seus 40 e poucos anos, ela tinha dois filhos, um de 21 que morava no norte e um pequeno. o pequeno eu vi nascer, peguei no colo quando ela me mostrou, ajudei a carregar o berço quando chegou da loja. eu esperava até ser convidado pra ser padrinho, mas claro que não fui. a mulher só me conhecia por uma conveniência condominial, assim digamos. ela tinha a família dela e tal. as pessoas queridas. mas eu sempre acompanhei de longe a vida do gurizinho. nos fins de semana ela deixava a porta do apartamento dela aberta e colocava um cercadinho pro cachorro e pro menino não saírem corredor afora. ele ficava sentadinho brincando com umas coisinhas de montar, umas peças grandes de plástico coloridas e que se encaixavam. às vezes eu sentava pra tomar um chimarrão perto da porta e ficava olhando o garoto brincar. ele tentava montar, e dava uns gritos de criancinha e às vezes mordia tudo, botava tudo na boca. quando vinha o cachorro ele fazia carinho na testa do bicho, que lambia.
depois ele cresceu bastante, ficou com uns 5 anos, assim. brincava com uns bonequinhos de heróis e fazia umas brigas deles no ar, os efeitos sonoros dos golpes eram sempre babados, tipo pfffffff de colisão de cabeças uma contra a outra, e ele se babava sempre. eu achava graça quando via, me lembro muitas vezes de babar e ser babado nesse sons. até porque minha infância foi o auge dos robôs gigantes japoneses de combate, então era pancadaria de brinquedo toda hora, com vários efeitos sonoros e vários truques pra não perder também. leva um golpezão todo babado e aí diz “daí ativei o botão X e fiquei muito mais forte”, pra nunca perder nem morrer. bons tempos.
uma vez, era um desses sábados de calor e porta aberta, eu tomava cerveja sentado em uma cadeira na porta de casa, e o garoto assistia tv dentro do outro apartamento, mas dava pra ver e ouvir. o gurizinho tava olhando um filme de desenho que passava na sessão da tarde, talvez fosse até aquele “em busca do vale encantado”, dos dinossauros, mas eu acho que não, era outro meio parecido. ele via bem na frente da televisão, prestando muita atenção, era difícil aquele garoto ficar parado e quieto por muito tempo, tanto que muitas vezes no meio do filme, a mãe, na cozinha provavelmente, pelo barulho da panela e o cheiro de feijão, soltava um grito de lá chamando o filho, pra saber onde ele andava, podia ter ido se enfiar no corredor. era engraçado, ele respondia como se fosse uma chateação, “queee mãããããee..”, aos 5 anos de idade, haha. uma hora acabou o filme, e o piá continuava lá, a mãe foi até a sala chamá-lo por algum motivo, só pra tirá-lo da frente da tv, e ele disse “não, vai passar o 2 agora, mãe”, e insistia em ficar. a mãe falou que não ia passar mais nada, mas ele teimou, ela deixou. eu me recolhi logo depois disso, no dia. mas na semana que se seguiu, eu só vi o guri sentadinho na frente da tv, sem falar nada, bem atento. a mãe chamava e ele demorava pra responder. ela ralhava e ele nem tava. “mas vai passar o dois, mãe, daqui a pouco, não, vai sim mãe, vai sim”, já meio choramingando. e esse era o diálogo mais freqüente que eles tinham. a mulher tentando tirar a criança da frente da tv, e ele não saindo nunca, e só ficando ali. brincar perto do cercadinho nunca mais. passou quase um ano assim, o garoto ficou meio catatônico, eu acho. sei lá. ele só queria tv, e olhava parecia que tava em hipnose. não falava mais, não brincava. só ficava ali sentado, com cara de bobo olhando. a mãe não sabia o que fazer, ela chorava no telefone às vezes falando com alguém. ela abraçava o filho, que nem reagia. era só tv. ela dava comida na boca dele, ele mal mastigava, ela dizia “engole, filho, por favor”. ela chorava dando comida pra ele. mas porque não desliga a tv dele, diziam as velhas matraqueantes nos corredores do prédio. porque elas não sabiam. não sabiam de nada. quantas vezes eu vi aquela mãe chorando encostada na porta da cozinha, vendo uma criança sentadinha no chão diante de uma tela cinza apagada, como se estivesse esperando alguma coisa ou maravilhada com o que quer que seja, uma maravilha tonta, perdida, fora desse mundo. por que isso? cadê o meu filho? cadê o meu filho, uma vez eu chorei junto dela, juro. foi quando chegaram dois homens, deviam ser médicos e falaram um pouco com o garoto, que não deu atenção, a mãe observava tudo de longe, na porta. eles pegaram e levantaram a criança, cada um segurando um braço, ele começou a gritar chorando. “eu quero ficar, eu quero ficar”, e quando passou pela mãe, ele olhava pra ela, em pranto horrível. “eu quero ficar, eu quero ficar”, e esperneava e olhava pra mãe que reconhecia o filho ali, agora, de volta. não aquele que ficava na catatonia, aquele que era vivo e normal, e que agora chorava e pedia pra mãe o salvar de tudo aquilo que estava acontecendo e que era errado. ela chorava mais que ele, eu acho. eu vi tudo pelo olho mágico, foi um dia terrível.
e depois disso eu nunca mais ouvi falar dele. a mulher durou um mês no apartamento e depois vendeu. e nesse mês, o apartamento não foi o mesmo. não se ouvia vida vindo dali. panela de pressão, tv, latido, chuveiro, nada. nada além de uma porta sem olho e com um número.
- ultimamente eu ando imaginando umas aranhas andando do lado, daí eu olho pra parede e nunca vejo nada.
- do tipo, sensação da aranha? tu sente a aranha cabeluda caminhando na parede, bem do lado da orelha?
- sim, isso. já sentiu?
- senti, quando eu era criança. eu tinha sensação de aranha sempre. eu imaginava aquela baita aranha do meu lado o tempo todo. ficava ali parado, porque eu jurava que via ela se mexer em posição de ataque cada vez mais pra pular.. e era tão grande e peluda, vou dizer que às vezes eu até queria me virar pra ver a tal da aranha, mas aí eu sentia medo, se eu me mexesse ela ia saltar.
- e era tão real, tão real que eu nunca atinei que era só olhar que ia sumir.
quando ele tomava a fórmula, começava a criar poderes sônicos, conseguia lançar uns raios pelas mãos que destruíam parede e no que mais ele quisesse atirar. uma vez, do outro lado da rua, ele se concentrou bem e lançou um bolotão vermelho de poder, que foi rápido até atingir o prédio do outro lado, explodiu o prédio e a esquina inteira junto. e ele era um cara mais interessado em melhorar essas habilidades do efeito da fórmula do que em se preocupar com o dano que elas podiam causar. era um ser muito perigoso, esse. alguém ia ter que fazê-lo parar de tomar aquilo, mas quem tentasse provavelmente ia levar raio, ele adorava se testar. e ia lá, com aquele olhar de maluco, parecia a cara do venom só que humana, e dava um pulo bem alto pra te acertar por cima. lançava o raio pela palma das mãos e ia parar em ti se tu não se mexesse rapidinho. às vezes não dava pra sair.
rpg
Segunda-feira, Julho 16, 2007
“é tempo de chuva, vai demorar pra poder ver estrelas de novo”, foi a primeira coisa que falou depois de abrir a janela, olhar pro céu um tempo e fechar de novo.
eles estavam esperando pra poder ver uma tal estrela, “polar” que chamavam. quando desse pra ver do céu, algum lugar na terra iria brilhar em reflexo. um brilho que se veria do universo pela segunda vez na história do planeta, era pra lá que tinham que ir. a lenda dizia que durante aquela semana, a lua seria cheia e logo se veria a estrela polar, pois ela ofuscaria toda e qualquer outra coisa no céu com sua luz intensa.
- e agora? vai ficar a semana inteira aí essa chuva
- não sei se temos todo esse tempo.
não havia muito o que fazer, se não tivesse céu limpo, não haveria sinal e eles nunca saberiam onde era.
- nós vamos ter que tirar esse tempo daí.
- mas como?
- ..
-
- eu não tenho essa resposta, mas talvez morrison possa ter.
- morrison?
- sim. se ele já sabia de tudo antes de contarmos, pode saber alguma coisa que nós ainda não descobrimos.
- então temos que voltar pra falkland agora, morrison falou que planejava sair de lá logo!
- sim, vamos!
e saíram correndo pela tempestade, que tinha apertado bem na hora.
tem gente que escreve livros, outros vendem picolé; o sr. hofen era criador de bombons. tinha uma choupana de madeira em uma floresta na suiça e morava com sua esposa fraulein, gordinha e rósea, há 23 anos criando chocolate. passava noites em claro imaginando uma nova combinação de sabores que fosse exclusiva ao paladar. quando imaginava algo que pudesse ser bom, ia correndo acordar a mulher e mandar esquentar o panelão de chocolate, depois saía pra rua em busca do ingrediente mágico. quando voltava, fraulein era o primeiro teste. se ela fizesse uma cara de interesse, opa. se risse, a idéia não era tão boa. às vezes ela simplesmente voltava pra cama. isso acontecia sempre que ele trazia alguma coisa estranha, do tipo uma abóbora, ou um esquilo. ele não entendia, coitado. era um velhinho tão bonzinho, criador de chocolates, imagine!
volta e meia ele acertava a mão. ficava ansioso esperando o chocolate esfriar e dava pra mulher comer. ela fazia “hmmm.. gutten!!”, e ele batia palmas e dançava ciranda com a ela. ia correndo ligar pra todas as empresas de chocolate do mundo, alguma tinha que ter interesse naquele chocolate ao leite com laranja. esperava o inverno inteiro a ligação. imagina se o sr. garoto gostou do meu bombom. ou o sr. nestlé! era muita ansiedade e sonho pra um velhinho só.
até que, meses depois, chegava uma carta por debaixo da porta. hofen! ele abria devagar, temeroso.
“PARABÉNS! SEU BOMBOM ACABA DE ENTRAR PARA A SELEÇÃO DE BOMBONS NEUGEBAUER!”
ah não. neugebauer não! e atirava o envelope na lareira, puto da cara.