ministry of silly waiting
Sábado, Junho 30, 2007
(vide postagem do dia 5 de junho)
esperávamos nós dois do outro lado da rua. era uma questão de tempo, e dito e feito: de repente sai um cara correndo, atravessa a rua sem olhar pros lados, quase é atropelado por um logus. chega até nós esbaforido, apavorado. calma, cara, que que houve?
- (arfando) não dá.. não dá.. aquele cara..
- que cara..
- (arfando, arregalado) é impossível.. eu sou..
- hã?
- eu sou o presidente da coca agora.. não dá.. é demais..
era essa a fama daquele restaurante. the ministry of silly waiting, era o nome. dois empresários compraram aquele lugar, era uma lavanderia antes, e começaram a levantar um restaurante. diz a lenda que eles percorreram todo o mundo dos estabelecimentos de comércio culinário atrás dos garçons mais bobos. e, sem dúvida, o êxito era daqueles caras. meu deus, nunca vi. depois de se acalmar um pouco, ele começou a nos contar do lugar. falou que tinha um silly waiter que, não interessava o que se falasse, ele sempre ia servir o que ele quisesse.
- pois não?
- nós vamos querer um frango xadrez, uma porção de arroz e duas cervejas.
- u-hum.. (anotando) u-hum. uma tigela grande de aspargos crus (sorrindo aos clientes). algo mais?
- ã.. aspargos?
- DUAS tigelas grandes de aspargos. (sorriso)
- não, não, nós pedimos frango xadrez.
- ah! ah sim.. me perdoem.. u-hum, estou anotando.. algo mais?
- as cervejas e o arroz..
- ah sim, sim.. então. grande tigela de aspargos, é isso?
- não! tu é surdo?
- não, senhor.
- nós queremos frango xadrez, arroz e cerveja! você não consegue entender isso?
- sim, senhor.
- então anote aí o que nós queremos, droga!
- sim, senhor. (ele começava a anotar, dando uma olhadinha pros clientes) oh sim, estou anotando.. claro que estou anotando o seu pedido.. a-han.. u-hum..
- mas que cara é essa, o que você está escrevendo aí?
- nada, senhor
- me dê isso aqui (arrancava o bloquinho da mão do cara).
- ..
- mas o que significa isso? (tinha uma baita tigela cheia de aspargos desenhada)
- é a sua tigela de aspargos, senhor. mais alguma coisa?
- SEM ASPARGO! SEM ASPARGOOOOOOOOOOOOO
bom, óbvio que, no fim, eles iam comer a maldita tigela de aspargos, derrotados, humilhados e chorando. nosso amigo contou que tinha o dançarino também.
- por favor, dois sundaes
- sundaes? oh sim.. ã, por favor, você pode segurar o meu bloquinho um instante?
- claro
- (dancinha)
- ..
- (dancinha)
- mas o que você está fazendo?
- (dancinha)
- pare já de fazer isso e me atenda, você é louco?
- (que nada, dancinha)
- chega, eu cansei desse lugar. só tem maluco! vou falar com o seu gerente, onde é a cozinha dessa espelunca?
o cara ia até a cozinha e o garçom dançarino ia atrás, fazendo a dancinha. quando o cliente chegava na cozinha encontrava todos, o gerente, os outros garçons, os cozinheiros, todos dançando e olhando fixamente pra ele. a dancinha era com as mãos na cintura e um sapateado nada a ver, muito idiota.
como eles conseguiram juntar tantos imbecis num só lugar? que estabelecimento mais bem-sucedido, esse.
ÄNGLAGÅRD
Sábado, Junho 30, 2007
dois caras fumavam um na beira do rio ferrolho, nas grota afu da suécia. tava frio pra burro, daí um falou pro outro “ô cara, vamos fazer uma banda”, e o outro disse “tá, vamos”. um comprou uma guitarra e outro uma bateria. daí ficaram 1 ano e 7 meses sem se ver porque tava frio demais pra sair. quando acabou a friaca congelante eles saíram de novo e se encontraram na beira do ferrolho. cara, tô tocando pra caralho, eu também. daí pegaram e fizeram um som brutal numa garagem, era a melhor coisa que ninguém jamais iria ouvir naquele vilarejo afastado, frio e nórdico pra caralho
pesquisa séria
Sábado, Junho 30, 2007
chegaram os caras, eles estavam fazendo uma pesquisa séria sobre o futebolismo nas pessoas
daí chegavam e perguntavam “o meu, pra que time tu torce”, daí os caras respondiam e eles diziam galo mineiro, é? galo mineiro é o teu time, daí pegavam um adesivo bem grande do time com o distintivo e largavam no chão. galo mineiro, é? daí um dos caras meio que se agachava, arregaçava as calças, preparando pra cagar. daí cagava no galo mineiro e depois pisava nele, esmagava a merda pura com o pé em cima do símbolo.
os caras ficavam putos e partiam pra agressão sempre, o futebol é um esporte muito forte!
lunático
Quinta-feira, Junho 28, 2007
- eu vou voltar pra casa, ela está me chamando, olha!
todos diziam pra ele não fazer aquilo. aquele lunático, maluco, mas que diabos, no fundo todo o vilarejo sabia que ia ser assim. aquele ali não era certo, nunca foi certo. antes fosse a cachaça, caso de muito pescador por aquela banda, mas nem isso, esse já nasceu meio torto das idéias, coitado.
- eu vim da lua hahaha! da lua! hahahahahahha
e ele, na copa da fraca e velha árvore que ficava na beirada do precipício, se sacudia e gritava sandices olhando pro céu, com os olhos arregalados, com cara de louco. até que uma rajada de vento se encarregou de desequilibrá-lo, fazendo-o cair daquela altura tão grande, impossível sobreviver. as pedras embaixo poriam fim na demente história daquele lunático, ou mesmo o mar bravo, que o arrastaria na direção de algum rochedo duro ou o tragaria até o sem fim do oceano.
- olha lá!
e, no meio do mar, no meio do escuro infinito, no caminho de luz da lua refletido na água, se via alguma coisa se mexendo, eram.. não pode ser, eram? eram sim. eram os braços do lunático resistindo ao destino.
ele nadava reto na estrada iluminada do oceano, certo de que voltaria pra casa.
nada mais porco do que morar sozinho. a louça atrolhada na pia, cheia de gordura, a torneira pingando e tu na sala, de cueca, comendo frango frito e vendo jogo da seleção. show do intervalo. cadê o controle? na bunda, claro. levantaí. a mão que é uma graxa só, põe no 39. melhores momentos. que nada, telefone. alô?
- é o vizinho do 404?
- sim, sou eu. quem é?
- oi, aqui é do 304. seguinte.. é que tá escorrendo um negócio aqui na nossa parede e vem de cima.. acho que tem alguma coisa a ver com o seu apartamento..
ai não.
- você pode descer aqui um instante?
- tá, já desço.
em 15 minutos ele tinha que resolver isso. tava 1×1 o jogo, merda de goleiro que não sabe sair na bola aérea. tinha que ser melhor o segundo tempo. e a velha embaixo reclamando sei lá do quê, vai se fuder sua velha, deve estar lá de xambre e rolinhos na cabeça, vai fazer um artesanato, vai!, fica aí atucanando. só falta eu descer lá e ter uma porra dum poodle, daí sim. botou uma regata e saiu do apartamento, não sem antes pegar uma coxinha pra comer no caminho, desceu as escadas e bateu no 304. a velha de xambre e um latido. falei..
- entra.
em meio aos latidos do cachorro, ele olha pra parede. uma mancha cadente e pingante, começando no teto. bah, certo que sou eu. chegou mais perto pra ver se era água.. não.. tinha cheiro de.. ?
- sabe o que é isso?
- olha.. não. isso tá aí faz tempo?
- desde ontem.
- ontem?
- é.
a cor não era de água, era meio amarelado, quem sabe? talvez fosse só a parede.
- aí em cima é o seu banheiro?
- não.. é o meu quarto.
- estranho..
é, estranho. e bem no meio do jogo. falou com o síndico, sua velha?
- ele tá de folga. acho que nós vamos ter que resolver isso. não quero ficar com essa mancha aí na parede, hoje de noite vem gente aqui.
- a senhora quer que eu limpe?
- eu mesma limpei ontem, mas a coisa continua a pingar. o negócio é resolver lá em cima.
- tá. eu vou subir lá pra ver.
a irritação dele foi passando de degrau em degrau no primeiro lance de escadas, um sentimento condominial foi tomando conta. no segundo lance aconteceu o inverso, e ele ficou mais puto ainda quando viu que tinha deixado a porta aberta. ia pegar o controle pra botar no 12 de novo, mas cadê ele? merda, pegou uma coxinha e foi pro quarto ver o que tava acontecendo. seja lá o que fosse, estava atrás do armário encostado na parede. e agora pra arredar isso? eu preciso de outro cara aqui.
no 403, um senhor baixinho e careca numa regata branca comia frango frito sentado vendo o PÉ campainha. ah não, mas que saco, foi resmungando alto até a porta.
- opa
- opa! tudo bem? olha só, desculpa atrapalhar.. mas é que a senhora ali de baixo me ligou avisando que tava com um vazamento.. eu fui olhar e nós achamos que é daqui de cima..
- hm
- e eu preciso arredar um armário pra ver o que tem na parede, o senhor podia dar uma mãozinha?
- arredar armário? (ah não..)
- é..
- tá, vamos lá ver isso.
se foram os dois mal-humorados, engordurados e interrompidos a arredar o armário. um de cada lado, no três levanta e carrega. um dois e.. TRÊS! nada. o bagulho tava grudado no chão. e agora? chamar outro?
foram no 407. um cara sem camisa e de bermuda abriu a porta, ao fundo se via outro sentado no sofá, comendo frango frito e olha só, a gente precisa duma mãozinha pra arrastar um armário, se foram os quatro interrompidos levantar a tonelada. no três. um dois e.. TRÊS! nada ainda.
- puta merda (disse o 403, secando o suor da testa com o braço)
o telefone toca. era a mulher do 304. resolveram aí?, mas é claro que não, sua velha, não tá vendo que a gente nem arredou o armário ainda?
- vamo de novo.
no três. um, dois, e.. TRÊS! bah, mas isso aí não sai do lugar? o 404 já colocava as mãos na cabeça em desespero. telefone de novo. respirou fundo. querem frango frito? opa, aceito. foi lá catar o balde e o telefone. e aí, velha. tava com saudade já. que foi, tá a mancha aí? porque não se levanta e limpa essa merda de parede, ein? põe um quadro!, faz uma porra de um furo e mete um quadro em cima dessa porcaria! tu quer me enlouquecer, ein, sua velha?
- não, filho, aqui é o zelador. eu já sei do problema. é, é, eu também acho. sim, sim, velha de merda. é!, é só fazer um furo..
gol. de quem? inglaterra, 2 a 1. ai, cacete.
- olha só, eu vou subir com um cara aqui que ele tem a solução, perfeito? ok.
ia avisar os outros no quarto, mas já estavam todos na sala, xingando e comendo frango frito. foi de bola aérea de novo? mas que merda esse cara!
- ô de casa!
era o zelador bigode e um homem com uma maleta.
- cadê a encrenca?
- é aquele armário ali no quarto. chegaí, chegaí. (..) é esse. diz a velha que tá saindo daqui a mancha.
- hm.
olhou bem, se encostou na parede pra ver se tinha como olhar a parte de trás do armário, o homem fez a mesma coisa do outro lado. e aí, tem solução? o zelador e o homem ignoraram a pergunta, começaram a conversar em um dialeto muito parecido com russo. aí aumentaram o tom de voz, gesticulando e começaram a se agredir fisicamente. po, paraí, paraí porra, paraí! o 403 e o 404 seguravam o homem, os 407 o zelador. soltaram-os. o zelador se recompôs e fez um assentimento com a cabeça para o homem, que abriu a maleta para retirar algo. o que era? começou parecendo um bastão..
no que o 404 se deu conta da lâmina no fim do cabo de madeira que agora empunhava o homem e começou a perceber o que estava pra acontecer com o armário que o seu pai tinha lhe deixado, gol. de quem, de quem? KRASCH, um estrondo enorme de machado horrendo na madeira velha.
- não!!!!111111111
já era, tarde demais. e outra machadada. e outra, e mais outra. o 403 pousou a mão no ombro direito do 404, dando tapinhas de solidariedade.
depois de destruída toda e qualquer estrutura do móvel, vasculharam os destroços em busca de alguma coisa. nada de anormal, além de uma embalagem de um faqueiro dos changeman. na frente, dizeres em japonês em destaque e os changeman empunhando colheres de sobremesa e facas de manteiga. no verso uma foto do giodai assado e na bandeja. o zelador ligou pra senhora do 304, enquanto o matador de armários guardava o instrumento de trabalho na maleta. ninguém atendeu a ligação. resolveram descer todos pra avisar. no caminho, uma olhadinha pra tv. 3 a 1 inglaterra. bah.
toca a campainha do 304. no olho mágico, uma senhora vê seis homens, quatro deles de regata branca. abriu a porta e perguntou pois não. “pois não”? como assim “pois não”, velha múmia?
- ahh.. sim, sim. entrem, entrem. quero que vocês vejam isso.
“ah sim”, diz ela. tomá no cu..
no recinto da mancha, seis homens contrastam com o sorriso jovial e satisfeito de uma senhora.
- pois é, enquanto vocês estavam lá em cima eu tive uma idéia.. vou pegar um prego, um martelo, furar a parede e colocar um quadro em cima da mancha, pelo menos pra disfarçar, né? depois, se continuar, a gente dá um jeito, sem pressa.. aí me sentei pra ver o resto do jogo..
um milésimo depois da senhora fechar a boca, um 404 pura cólera se avança bufando na velha.
- eu mato essa velha, eu mato! eu esgano! gnnnnnnnnnn sua velhammmmmmmmmmmmmmm (os cinco o seguravam em meio aos latidos do poodle cretino, tapavam a boca, tentavam prender os braços, mas ele estava tomado pela fúria, era uma força divina, um senso superior de justiça movendo aquele ser. foi difícil, ele se degladiou com toda a energia que tinha, enquanto houvesse consciência haveria vontade de matar. e foi assim, até desmaiar.)
- vendi meu carro e me mudei. tô morando numa casa que eu mesmo levantei, achei umas tábuas numa construção e perguntei pro capataz se podia pegar pra mim, ele falou “levaí” e eu “beleza”. peguei um martelo, comprei um saco de prego e montei o casebre bem direitinho, no meio da estrada. nem sei se tem dono aquele terreno, mas eu tô lá. cavei um poço, não tem luz, eu escuto rádio e jogo paciência, às vezes vou na venda pra comprar salame e pão, mas eu sempre acabo gastando tudo em fumo de rolo e cachaça, volto trocando perna e quase sou atropelado, tento abrir a porta mas não consigo porque esqueço a chave sempre, daí pulo a janela e sempre acontece algum acidente, eu caio feito uma jaca no chão e fico lá apagado até às 2 da tarde, quando alguma vaca ou bode, às vezes é um bode que entra pela porta dos fundos, derruba tudo e faz um barulhão, isso quando não vem me lamber, eu sempre acho que é mulher e já vou pondo culpa na branca, ora essa, trazer pra casa essa china peluda, e que cheiro de bode é esse? quando eu vejo que é bicho até me dá um alívio, o problema é pra afastar depois, tem dias que nem grito nem vassoura funciona, sabe? aí eu digo “ah é? então saio eu”, e me vou pra venda comprar salame.
ia pela armando da silva no corcel, rolando um john coltrane no toca-fita. bah, coltrane é muito afudê. olha só esse começo, cara.. é brutal!, e se imaginou já chegando e entrando na xis-padaria dagoberto pra tomar aquele café. tudo ao som do jazz. ia se sentar no banco perto do balcão e pedir “ô, renato!, salta aqueles dois pingado com três açúcar em cada”, daí o renato ia dizer que era pra já e ele ia ficar uns 27 minutos esperando.
cotocos
Sexta-Feira, Junho 22, 2007
- não tem perigo, é só colocar as mãos embaixo e pronto. ó. viram? mãos limpas em um instante!
era a grande novidade da feira de tecnologia, a “pia do futuro”. chega de ficar se refocilando na água imunda do esgoto, a torneira do amanhã vai dar um fim nisso. “o laser que tudo limpa”, anunciava o host. ele sujava as mãos de geléia de uva, ligava a torneira a laser, só passava as mãos embaixo e elas ficavam branquinhas. perto do meio-dia ele tinha enfiado a cabeça na pia e saído sem barba, o público aplaudiu em êxtase.
- é fácil, é rápido, é eficiente, é o futuro! é o fim da sessão esfrega-louça. quem quer experimentar? você? ora, vamos, minha senhora, não tenha medo, é só abrir a torneira e colocar as mãos embaixo.
a velhinha abriu a torneira e enfiou as mãos no laser.
- AAAAAAAAaAaAaAHHhHhhHhhHhHHHhgGGGGgGgg
bah, decepou. foi bizarro. tirou só uns braços sem mãos da pia, levantava eles pro ar em desespero, jorrando sangue.
- não.. você fez errado! é assim, ó! e ele colocava as mãos cheias de geléia no laser e elas saíam limpas. é fácil, vamos, se aproximem, minha gente! é o futuro da limpeza chegando até vocês!
a fila no departamento médico era gigantesca, o stand superlotou de pessoas com os braços em cotocos.
trampo
Quarta-feira, Junho 20, 2007
chega desse monitor. vou mijar. cheguei lá e vi que o coordenador-geral tivera a mesma idéia. fui no mictório do lado.
- e aí
- e aí.
tudo tranqüilo, abria meu zíper quando ele puxou um assunto de banheiro.
- vem cá, o que tu faz aqui?
- hm?
- o que tu faz aqui na empresa
- ah, eu sou armeiro-escrivão.
- armeiro-escrivão?
- é
- hm..
balançamos os ticos.
- pois olha (disse ele, guardando o tico na calça), eu estou precisando de um armeiro-escrivão. tô pensando em montar negócio próprio, sabe? cansei de ser mais um nessa jogada falsa aqui, quero mais é ter o meu, fazer do meu jeito, sabe?
- hm
- eu já falei com o souza, ele topa. eu tenho mais ou menos tudo esquematizado, falta só achar alguém pra ser o loureiro beltrão da firma.
- hm..
lavávamos as mãos. o coordenador também lavou o rosto.
- e porque não o próprio loureiro beltrão?
- ah (secando o rosto), eu não vou muito com a cara dele. queria outra pessoa.
olhei pro espelho. o que ele tinha contra o loureiro beltrão?
- o que tu tem contra o loureiro beltrão?
- olha
-
- eu já trabalhei com o loureiro beltrão antes. gente boa, responsável. chega no horário. eu não consigo chegar no horário, ele chega sempre. mas ele é enlouquecido da cabeça.
- enlouquecido?
- sim. ele teve uns problemas lá onde a gente trabalhava.
me contou uma história sobre um loureiro beltrão animado e falante, muito diferente do cara quieto que ficava ouvindo seus fones de ouvido no canto do setor de design. era um daqueles que sempre tinha uma piadinha pra falar, uma coisinha pra contar do que aconteceu ontem, ou um saco cheio de bergamotas do quintal da vó dele. todo mundo curtia o cara, até que um dia ouviram uns gritos no banheiro. pegaram ele sem camisa, só de cueca e meias, com um cocar, dançando e urrando feito pomba-gira, os braços imitando galinha, o nariz todo branco.
- é por isso que eu digo. quem quiser, leva cocaína pro trabalho. você leva? eu não.
saí do banheiro meio atordoado. quem diria, o cara mais ermitão do escritório, ex-cocainômano. ex? “quem quiser, leva cocaína pro trabalho.” quando me sentei de volta no meu lugar, ele se levantou e entrou no banheiro. você leva? eu não.
- o marssôn, essas etiquetas aqui. vieram nessa ordem?
não.
- não.. é que eu achei melhor colocar na
- não, não, tem que ser na ordem que eles mandam. descola aí e põe de novo. tem que ser na ordem que vier do postal, senão pode dar problema lá no envio e é pra cá que eles vêm se queixar depois. ajeita aí.
minha chefe, com um humor duma velha de mil anos que não mete há 600. não sei se ela era essa velha na vida real. tava bem, até.
arroz com bife
Quarta-feira, Junho 20, 2007
- vai querer o quê
o vendedor sempre perguntava isso, mesmo sendo um estabelecimento especializado em arroz com bife, com uma placa na rua anunciando “HOJE: ARROZ COM BIFE” há 32 anos.
- arroz com bife..
sempre aquela fila enorme de operários na hora do almoço, todos ali esperando a sua vez de responder arroz com bife. a resposta era sempre a mesma, o empregado perguntava por puro cacoete. ou porque tinha que falar alguma coisa, não ia simplesmente olhar a cara do próximo e entregar um prato de comida sem mais nem menos. tem que perguntar o que ele quer, vai que ele tá ali só porque achou bonito. e aí, tá achando bonito ou vai querer arroz com bife?
uma vez, um engraçadinho resolveu fazer uma graça com o tio do arroz com bife quando chegou a vez dele. primeiro, a pergunta ninja.
- vai querer o quê
- pau na tua bunda
- o quê?
- arroz-com-bi-fe! (falou, como se o vendedor não tivesse ouvido da primeira vez)
ele ficou olhando pra cara do moleque um tempo. depois se virou, botou o arroz com bife no prato e despachou o guri.